Aqueles dias em que tudo o que eu precisava era de uma janela

Hoje, antes de entrar no trabalho, ainda dentro do carro, pensei que tudo o que eu precisava era de um café sem pressa.
Uma janela aberta diante de uma vista para o mar. Ou para um campo extenso, com o vento balançando o mato devagar, ouvindo aquele som, apenas o chiados do mato balançando. Um sol gostoso tocando a pele e um ar fresco entrando pelos pulmões.
Por alguns segundos, consegui quase provar a sensação de estar naquele lugar.
Eu conseguia imaginar a xícara quente entre as mãos, o barulho do vento, o horizonte diante dos olhos e aquela tranquilidade rara de não precisar correr para lugar nenhum.
Então olhei para o prédio onde eu precisava entrar.
Meu cartório tem luz fria, duas telas permanentemente diante de mim e nenhuma janela.
Não existe horizonte.
Não existe mudança de luz ao longo do dia.
Não existe vento entrando, céu para observar ou qualquer sinal de que o mundo continua acontecendo do lado de fora.
Existem paredes, telas, documentos, histórias pesadas e uma iluminação artificial que parece deixar todos os dias exatamente iguais.
E eu percebi que não estava apenas com vontade de tomar café olhando para o mar.
Eu estava com saudade de respirar.
Saudade de ter tempo.
Saudade de sentir o sol na pele sem estar correndo entre um compromisso e outro.
Saudade de olhar para longe.

Às vezes, o corpo entende antes da mente que alguma coisa já passou do limite.
Ele começa a desejar silêncio, natureza, espaço e descanso. Começa a criar imagens de lugares onde finalmente poderia baixar a guarda.
Talvez por isso aquela cena tenha surgido tão viva dentro de mim.
Não era apenas uma fantasia bonita.
Era uma necessidade.
Eu ainda não sei exatamente como mudar tudo o que precisa ser mudado. Ainda existem responsabilidades, contas, compromissos e uma vida inteira que não pode ser abandonada de uma hora para outra.
Mas também sei que não quero continuar ignorando essa sensação.
Talvez a primeira mudança seja parar de tratar a exaustão como fraqueza.
Talvez seja entender que desejar outra vida não é ingratidão. É o começo de uma direção.
E, enquanto essa nova vida ainda não chega, quero tentar encontrar pequenas janelas por onde eu puder.
Um café tomado do lado de fora.
Alguns minutos de sol antes de entrar.
Uma caminhada em um lugar aberto.
Uma pausa sem telas.
Um plano construído aos poucos para que, algum dia, eu não precise apenas imaginar o vento balançando o campo.
Eu possa estar lá.
Com minha xícara nas mãos, o sol na pele e nenhum lugar urgente para onde correr.


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